Vídeo : Homem Inventa Gasolina sem petróleo e acaba preso



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Você talvez tenha cruzado com essa notícia nas redes sociais (se ainda não chegou a você, logo chegará): um brasileiro de 57 anos criou uma gasolina sem petróleo mais “potente” e mais barata que a gasolina dos postos, e acabou preso por isso.

Em tempos de turbulência política no Brasil e no mundo, o título sensacionalista ajudou a viralizar a notícia e a transformou em munição para discussões ideológicas intermináveis e cheias de clichês.

Só que essa história tem um probleminha… Confira:

O caso aconteceu em junho deste ano, quando as Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor e Especializada Criminal de Porto Alegre, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e a 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo deflagraram a Operação Octanagem em Campo Bom e Novo Hamburgo, que investigava a venda clandestina de combustível na região gaúcha. A ação terminou com a prisão do químico Gilmar dos Reis, de 57 anos, responsável pela fabricação do combustível “alternativo”. O acontecimento quase não teve repercussão na mídia na época — apenas o jornal Correio do Povo e um portal de Novo Hamburgo divulgaram uma nota sobre o crime.

Há alguns dias, contudo, a notícia foi requentada, mas agora com uma abordagem diferente: os textos davam ares de invenção revolucionária ao combustível clandestino, levando os leitores a crer que o químico acusado pelas autoridades gaúchas era, na verdade, um empreendedor inovador que, graças à burocracia estatal, acabou preso. Soa interessante, não?

É claro que abri o link — não resisto a títulos sensacionalistas e caça-cliques. Lendo a notícia soube que a tal gasolina sem petróleo era nada menos que uma mistura de metanol com solventes (cujos nomes/formulações não foram divulgados). Sim: o sujeito vendia metanol batizado.

O metanol é um álcool originalmente extraído da destilação seca de madeiras (por isso também é conhecido como álcool de madeira) e, embora fosse usado no embalsamento dos cadáveres pelos antigos egípcios, foi isolado somente em 1661 — ou seja: ele está por aí há 355 anos. Por ter propriedades semelhantes às do etanol (ambos são álcoois) ele foi usado por muito tempo como combustível em motores de combustão interna. Até a década passada o metanol era o combustível da CART/Indy e ainda é usado em algumas categorias como a Top Fuel da NHRA. O metanol chegou a ser usado como combustível para carros de passeio em algumas ocasiões, como durante a Crise do Petróleo de 1973 ou em algumas entressafras de cana nos anos 1980 e início dos anos 1990, quando a demanda por etanol era maior que a produção.

Atualmente o metanol é usado como solvente em reações industriais, na produção de polímeros sintéticos, na extração de óleos vegetais e animais, no preparo de vitaminas, hormônios e colesterol, na obtenção do éter metílico-terciobutílico (MTBE; usado nos EUA para aumentar a octanagem da gasolina) e na produção de biodiesel, junto com o catalisador e o óleo vegetal. Por ser altamente tóxico sua venda é estritamente controlada pela Polícia Federal, podendo ser comercializado apenas entre pessoas jurídicas cadastradas e com registro das notas fiscais de compra.

Dito isso, a tal “gasolina revolucionária” sem petróleo era simplesmente um combustível usado desde os primórdios do automóvel com solventes adicionados à sua formulação por motivos que não foram esclarecidos. Essa prática, aliás, era muito comum nas corridas do início do século XX para obter mais rendimento dos motores com taxas de compressão mais elevadas. Rolls-Royce, Triumph, Sunbeam, Napier, Delage, Alfa Romeo, Mercedes-Benz, Auto Union, BMW e praticamente todas as fabricantes de carros, motos e aviões que se envolviam em competições usavam formulações que podiam incluir aditivos como benzeno, tolueno, acetona, nitrometano, metanol e até água.

Além da toxicidade do metanol (sua inalação e/ou exposição pode causar irritação cutânea, dores de cabeça, disfunção renal e/ou hepática, coma e até morte) seu uso como combustível é restrito legalmente e não recomendado por períodos prolongados por causar desgaste prematuro dos componentes do motor por ser altamente corrosivo a ligas metálicas como o ferro fundido, o alumínio e o aço de blocos, cabeçotes, coletores e escapes. Ou seja: em longo prazo o combustível vendido pelo falso-inventor do Rio Grande do Sul também poderia danificar os motores de seus clientes.

É por isso que todo combustível tem sua produção comercialização regulamentada por órgãos nacionais — sejam públicos ou privados — em todo o planeta. É uma forma de estabelecer padrões mínimos de segurança ambiental e de qualidade do produto. No Brasil, a agência reguladora da produção e comércio de combustíveis é a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP. Para produzir e vender combustível você precisa de autorização deste órgão público, que irá certificar que seu combustível está de acordo com as normas técnicas pré-estabelecidas. E foi por esse motivo que o químico gaúcho foi preso: ele estava comercializando combustível sem autorização, infringindo a Lei n.º 8.176/1991, que define os crimes contra a ordem econômica. Entre estes crimes está a produção de combustível em desacordo com as normas vigentes. No flagrante da polícia, o químico tinha armazenado 600 litros do combustível, bem como anotações da fórmula do produto. O metanol formulado era vendido por R$ 3 o litro e prometia, como sempre, mais desempenho e menos consumo.

fonte : http://acidezmental.xpg.uol.com.br/


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